{"id":475,"date":"2019-07-05T08:45:38","date_gmt":"2019-05-04T17:28:26","guid":{"rendered":"http:\/\/nuisiszobop.com\/adytum-azathoth-2\/"},"modified":"2019-07-05T09:22:05","modified_gmt":"2019-07-05T09:22:05","slug":"congresso-a-assembleia-dos-momentos-frageis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nuisiszobop.com\/en\/congresso-a-assembleia-dos-momentos-frageis\/","title":{"rendered":"Congresso: A Assembleia dos Momentos Fr\u00e1geis"},"content":{"rendered":"","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":482,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-475","post","type-post","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"grid":"{\r\n  \"colCount\": 12,\r\n  \"colGutter\": 2,\r\n  \"rowGutters\": [\r\n    6,\r\n    2\r\n  ],\r\n  \"frameMargin\": 2,\r\n  \"topFrameMargin\": 12,\r\n  \"bottomFrameMargin\": 2,\r\n  \"rowAttrs\": [\r\n    {},\r\n    {},\r\n    {}\r\n  ],\r\n  \"bgColor\": null,\r\n  \"cont\": [\r\n    {\r\n      \"type\": \"text\",\r\n      \"cont\": \"<p class=\\\"_title\\\" style=\\\"text-align: center;\\\">Congresso: <br \/>A Assembleia dos <br \/>Momentos Fr\u00e1geis<\/p>\",\r\n      \"align\": \"top\",\r\n      \"row\": 0,\r\n      \"col\": 2,\r\n      \"colspan\": 8,\r\n      \"offsetx\": 0,\r\n      \"offsety\": 0,\r\n      \"spaceabove\": 0,\r\n      \"spacebelow\": 0,\r\n      \"yvel\": 1,\r\n      \"push\": 2,\r\n      \"relid\": 5\r\n    },\r\n    {\r\n      \"type\": \"text\",\r\n      \"cont\": \"<p class=\\\"p1\\\">S\u00f3 faz sentido a quest\u00e3o dos antecedentes te\u00f3ricos do actual trabalho do actor se colocada no sentido de um reviver da tradi\u00e7\u00e3o, e do seu esp\u00edrito\u00a0 Nesse aspecto o teatro \u00e9 como o esoterismo: o que sobra \u00e9 incompreens\u00edvel para um olhar leigo, para o olhar que n\u00e3o pressente j\u00e1 o que procurar. A verdadeira transmiss\u00e3o \u00e9 feita oralmente, ou por contamina\u00e7\u00e3o, e mesmo essa implica \u00e1 partida estar disposto a capturar no ar o que merece ser capturado.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Em todas as transmiss\u00f5es o primeiro elemento \u00e9 a paix\u00e3o, o fogo, a curiosidade insaci\u00e1vel. Sem esse elemento os te\u00f3ricos s\u00e3o um carv\u00e3o negro que n\u00e3o dar\u00e1 calor ou luz. E o actor perde-se numa complexa teia de ilus\u00f5es, que bem ou mal tecidas, jamais conduzir\u00e3o ao desbravar do que est\u00e1 vivo. Perde-se em aut\u00f3psias.<\/p><p class=\\\"p1\\\">No teatro, paradoxalmente, a forma de abrir o v\u00e9u come\u00e7a por acreditar no eterno retorno, no tempo m\u00edtico, numa eterna reminisc\u00eancia das coisas, aqui e agora.<\/p><p class=\\\"p1\\\">O actor sofre processos de transmuta\u00e7\u00e3o, segundo modelos arcaicos, em que qualquer contempor\u00e2neidade n\u00e3o passa o mais das vezes de uma roupagem externa. Movemo-nos sempre dentro da hist\u00f3ria, e fora da hist\u00f3ria, ao mesmo tempo, pesquisando a possibilidade de uma constante primeira vez, de uma constante frescura.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Diz-se que o teatro \u00e9 uma arte, fala-se em emo\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, abrimos m\u00e3o de termos cujo fito n\u00e3o \u00e9 mais do que propagar o lugar comum. O teatro n\u00e3o ser\u00e1 uma est\u00e9tica, antes uma \u00e9tica. Uma \u00e9tica de metamorfose que combina o l\u00fadico e o sagrado, o temporal e o atemporal.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Devemos escolher bem cedo se o que fazemos \u00e9 fic\u00e7\u00e3o ou realidade. A fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o assume, no fundo, um car\u00e1cter de necessidade. Trata-se apenas de um luxo. O que \u00e9 um luxo descai sempre para segundo plano quando a vida se torna perigosa, inclemente. H\u00e1 sempre quem se apegue aos seus pequenos luxos em todas as circunst\u00e2ncias. Quando vem a trag\u00e9dia h\u00e1 sempre quem queira fugir ou ignorar, quem em desespero se refugie em pequenas idiossincrasias est\u00e9ticas, aquelas que nos refor\u00e7am as cren\u00e7as de sermos quem achamos ser.\u00a0<\/p><p class=\\\"p1\\\">Esse esteticismo desliza para padr\u00f5es, normas e morais, preceitos ciclicamente renov\u00e1veis. Quando se fala em vanguarda fala-se quase sempre no desejo de descobrirmos o nosso luxo particular. Propagande\u00e1-lo \u00e9 vendermo-nos. Absurdos marcados pelo t\u00e9dio.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Devemos aqui manter o p\u00e9 ligeiramente fora da hist\u00f3ria do discurso. \u00c9tica implica decis\u00e3o, e o teatro \u00e9 um espa\u00e7o de decis\u00f5es, a grande met\u00e1fora da decis\u00e3o. \u00c9 um espa\u00e7o paradoxal, destitu\u00eddo de qualquer esperan\u00e7a. \u00c9 o presente.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Cada vez que nos entranhamos pelos subterr\u00e2neos da actividade teatral damos de caras com uma reminisc\u00eancia antiga, a que sem pudores e pruridos eu apelidaria de m\u00e1gica.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Falamos ent\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o ou falamos de realidade? Falamos de um universo escapista de sonhos sonhados em ilus\u00e3o, num pequeno mundo perfeito e control\u00e1vel, embora raramente, ou falamos de realidade, de uma porta que subitamente se abre? Abrimo-la? Fechamo-la? Damos pequenas espreitadelas medrosas e, com pomposas linguagens, elucidamos falsamente a manada?<\/p><p class=\\\"p1\\\">Grande parte de n\u00f3s limita-se, no m\u00e1ximo, a postar-se a essa porta de armadura, cadeira de veludo e \u00f3culos de sol, de costas voltadas para ela, com um rito de exuber\u00e2ncia e seriedade a afastar o temor. Do lado de c\u00e1 dessa porta sempre h\u00e1 o p\u00fablico, os outros, e os espelhos. Do outro lado, solid\u00e3o e assombro.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Como todas as grandes analogias, esta \u00e9 uma analogia de morte. Do desconhecido e do fim. Desperdi\u00e7a-se a vida quando n\u00e3o se enfrenta de perto essa morte do actor. O actor n\u00e3o \u00e9 mais do que um ser humano com absoluta fome de experi\u00eancia, determinado a usar-se na procura de um conhecimento outro. Algu\u00e9m que se testa sob o signo da oposi\u00e7\u00e3o e do confronto. Do desafio.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Claro que h\u00e1 quem o ignore, quem recuse, quem n\u00e3o se transgrida. Existem sempre os arautos paradigm\u00e1ticos da restri\u00e7\u00e3o e do comedimento, do correcto bem falar da modernidade, das raz\u00f5es segundas. De tudo o que diverte da necessidade de decidir aqui e agora, da partida.<\/p><p class=\\\"p1\\\">A generosidade e a intensidade da paix\u00e3o sob uma \u00e9tica de metamorfose, sob o constrangimento feroz do presente e da ac\u00e7\u00e3o, sob a repeti\u00e7\u00e3o exaustiva e renovada, s\u00e3o o principio e o fim da t\u00e9cnica do actor. Nada mais do que isso, e nada menos do isso, \u00e9 necess\u00e1rio para come\u00e7ar.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Quem n\u00e3o o entende, n\u00e3o percebe nada. Que se afaste, diria eu cheio de expectativa.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Nada h\u00e1 sen\u00e3o estrat\u00e9gias, e passo a descrever uma, a cria\u00e7\u00e3o de uma assembleia interior a que chamarei o \u201cCongresso\u201d. Trata-se de listar todos os nomes que na hist\u00f3ria do teatro, e da dan\u00e7a alguns, nos parecem relevantes e \u00fateis. Eu daria uma \u00eanfase particular aos pr\u00e1ticos. Uma lista que dever\u00e1 conter no m\u00e1ximo 25 nomes, por raz\u00f5es funcionais.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Durante uma semana estes nomes ser\u00e3o repetidos internamente, duas vezes por dia uma hora de cada vez, em posi\u00e7\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o numa cadeira, corpo muito ligeiramente inclinado para a frente (uma eterna pulsa\u00e7\u00e3o para se levantar que nunca chega a concretizar-se) coluna vertebral alinhada num eixo vertical imagin\u00e1rio terra c\u00e9u.\u00a0<\/p><p class=\\\"p1\\\">Olhos fechados, mas se abertos focados num ponto a 45 graus para cima, im\u00f3veis. A repeti\u00e7\u00e3o interna do nome, proponho 48 vezes cada um, deve acompanhar ou o ciclo da inspira\u00e7\u00e3o - expira\u00e7\u00e3o, ou uma silaba por batida do cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o deve existir nenhuma tentativa de produ\u00e7\u00e3o de imagens ou de visualiza\u00e7\u00e3o, apenas a tediosa repeti\u00e7\u00e3o do nome, como um chamamento inaud\u00edvel.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Um pequeno di\u00e1rio deve ser criado para registar dificuldades e acontecimentos. Conv\u00e9m que o praticante possua os livros chave de cada um dos nomes envolvidos e ocasionalmente olhe para esses livros folheando desinteressadamente as p\u00e1ginas. Que os atire ao ar e tente equilibr\u00e1-los a todos numa s\u00f3 m\u00e3o, ou em cima da cabe\u00e7a. Queim\u00e1-los, algumas p\u00e1ginas de cada vez \u00e9 tamb\u00e9m uma op\u00e7\u00e3o v\u00e1lida.\u00a0<\/p><p class=\\\"p1\\\">Ao fim de uma semana, todos esses livros que se sup\u00f5e j\u00e1 anteriormente lidos, devem ser deitados fora ou oferecidos. Para os mais t\u00edmidos emprest\u00e1-los \u00e9 uma hip\u00f3tese alternativa, de prefer\u00eancia a quem n\u00e3o perceba nada de teatro. Recomendo emprest\u00e1-los a produtores, autores dram\u00e1ticos na moda, cen\u00f3grafos, sonoplastas, encenadores inaptos, literatos e afins.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Na segunda semana, deve-se exercer um esfor\u00e7o constante de visualiza\u00e7\u00e3o, apoiado em fotografias ou outros materiais, durante a repeti\u00e7\u00e3o ou chamamento. O ponto de concentra\u00e7\u00e3o, plagiando neste termo Viola Spolin, \u00e9 for\u00e7oso que seja a manuten\u00e7\u00e3o de uma imagem na mente, correspondente ao nome. N\u00e3o exactamente uma imagem fiel, dado isso n\u00e3o existir. Mant\u00e9m-se o pequeno di\u00e1rio.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Com os seus conhecidos, o actor praticante deve subtilmente ir encarnando dentro de si as vozes que por esta altura j\u00e1 o devem incomodar, guardando segredo dos processos que explora, imaginando que a sua boca, ao falar, se situa ou no umbigo ou nos \u00f3rg\u00e3os sexuais. Caso fale com encenadores, fa\u00e7a-se munir de uma cruz, de alho, de um martelo, e de intelig\u00eancia superior, o tipo de intelig\u00eancia superior que s\u00f3 \u00e9 perme\u00e1vel a manifesta\u00e7\u00f5es simples de sinceridade. Entretanto, e ao mesmo tempo, seja o mais fr\u00e1gil que puder.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Na terceira semana assimile na imagina\u00e7\u00e3o, em simbiose, o seu pr\u00f3prio corpo f\u00edsico ao corpo do homem ou da mulher que possu\u00edram o nome, enquanto o repete, a repeti\u00e7\u00e3o sempre exaustivamente constante, olhos agora preferencialmente sempre fechados. N\u00e3o foi dito at\u00e9 agora mas um dos nomes deve ser o seu, na ordem que desejar embora eu recomende que seja impreterivelmente ou no principio ou no fim da lista. Prepare-se com humildade para a experi\u00eancia curiosa de assimilar na imagina\u00e7\u00e3o o seu corpo com o seu corpo. Mant\u00e9m-se o pequeno di\u00e1rio.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Na quarta semana, abra os olhos, e veja \u00e1 sua frente, sentado numa cadeira em tudo igual \u00e1 sua, em posi\u00e7\u00e3o corporal em tudo igual \u00e1 sua, olhando para si nos olhos, o possuidor do nome que repete e do corpo que assimila. Para a sua sanidade mental aconselho a que crie por esta altura um gesto ou uma ac\u00e7\u00e3o que, independentemente do trabalho especifico no Congresso, marque para si o principio e o fim da sess\u00e3o, de forma inapel\u00e1vel. Isto fica ao seu crit\u00e9rio. Estude nas tradi\u00e7\u00f5es teatrais e n\u00e3o s\u00f3, as formas estereotipadas de come\u00e7ar e acabar, e decida. Se n\u00e3o o fizer, perder\u00e1 o controle. Estude com amor e aten\u00e7\u00e3o a biografia de, por exemplo, Artaud. De um modo ou de outro, prepare-se para sofrer.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Caso se sinta a perder o controle, n\u00e3o cometa jamais o erro de se achar forte ou racional. O inconsciente \u00e9 antigo e goza com as nossas idiossincrasias de poder. \u00c9 prefer\u00edvel fazer amor com o diabo do que ser violado\/a por ele. Caso, mesmo assim, encontre prazer na ideia de ser violentamente possu\u00eddo ou possu\u00edda pelo sonho, caso esteja t\u00e3o preso ou presa numa teia de racionalidade para ser essa a sua \u00fanica sa\u00edda honrada, deixe-se violar sem pudores. Ostente as suas feridas como quem ostenta um precioso pr\u00e9mio e procure o seu consolo no vicio de rir ruidosamente. Mantenha sempre o pequeno di\u00e1rio como uma subtil concess\u00e3o \u00e1 continuidade do tempo e da sua ilus\u00e3o constru\u00edda, a identidade.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Passou-se um m\u00eas. Comece a incluir no di\u00e1rio, se n\u00e3o o fez antes, descri\u00e7\u00f5es de quaisquer ac\u00e7\u00f5es f\u00edsicas que o sonho lhe revele, bem como observa\u00e7\u00f5es de movimento, e apenas de movimento, que no seu dia se revelem como n\u00e3o comuns. N\u00e3o force a mem\u00f3ria do supostamente extraordin\u00e1rio, force antes a lembran\u00e7a daquilo que para si \u00e9 estranhamente comovente, para l\u00e1 de qualquer sentido ideol\u00f3gico ou meramente social. Explore a observa\u00e7\u00e3o tanto daquilo que lhe \u00e9 repugnante como daquilo que lhe agrada.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Na quinta semana, inclua uma pequena varia\u00e7\u00e3o, que podemos denominar de fole. Pense no ferreiro que com o seu fole aumenta ou diminui a intensidade do fogo. Com a expira\u00e7\u00e3o abra os olhos, com a inspira\u00e7\u00e3o feche-os. Ao contr\u00e1rio do que \u00e9 vulgo achar-se \u00e9 na inspira\u00e7\u00e3o que o corpo se abandona. Com a expira\u00e7\u00e3o fa\u00e7a sair de si o corpo do nome que repete, e que est\u00e1 assimilado ao seu, para a sua frente olhando para si nos olhos, com a inspira\u00e7\u00e3o e os olhos fechados volte a incorpor\u00e1-lo em si, cultivando a sensa\u00e7\u00e3o que \u00e1 sua frente, por detr\u00e1s dos seus olhos fechados, se encontra voc\u00ea mesmo olhando para si, olhando para voc\u00ea e vendo o corpo do indiv\u00edduo cujo nome voc\u00ea repete. Seja claro na formula\u00e7\u00e3o deste desejo de ida e volta. Mantenha a cima de tudo a concentra\u00e7\u00e3o e a repeti\u00e7\u00e3o exaustiva.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Neste ponto, antes de avan\u00e7ar para as sexta, s\u00e9tima e oitava semanas, gostaria de divagar para uns assuntos alheios e relatar aleat\u00f3riamente alguns pontos que por si podem ter muito pouco em comum, tanto com este texto como entre si. Vou deixar correr um pouco o meu espirito. N\u00e3o. De modo algum. N\u00e3o h\u00e1 nada a relatar. Continuemos sem fait-divers. Sujemo-nos mais um pouco porque n\u00e3o h\u00e1 nada pior do que a obsess\u00e3o pela limpeza, a sabedoria \u00e9 suor, tem odores intensos que se propagam pelo ar como as feromonas de insectos no cio. Come\u00e7o a ter uma irreprim\u00edvel vontade de continuar este texto em vern\u00e1culo, mas resisto. \u00c8 preciso manter um certo decoro, pontuado por expira\u00e7\u00f5es excessivamente sonoras.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Portanto, ia iniciar a descri\u00e7\u00e3o da sexta semana, em que algo muda. Pegue nos nomes da sua lista, um a um, e submeta-os ao seguinte processo cortante e recombinat\u00f3rio, exemplificado num nome ao acaso que esperemos que n\u00e3o fa\u00e7a parte da sua listagem, met\u00f3dica e consciente : Florindo Ladislau Hermenegildo. Censure as letras que se repetem e temos florindasuhermeg. Recombine de modo a criar aquilo que em certos meios se chama um nome b\u00e1rbaro de evoca\u00e7\u00e3o e temos, entre m\u00faltiplas hip\u00f3teses, Sermeg Roin Dafluh. Para Konstantin Stanislavsky isto d\u00e1 konstailvy e Vkonta Syvil . Vkonta Syvil portanto ficar\u00e1. E n\u00e3o, n\u00e3o se preocupe com a minha sa\u00fade mental, preocupe-se antes e deveras com a sua sa\u00fade social.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Depois de ter assim escalpelizado cada um dos seus nomes, decore o resultado com o fervor de uma crian\u00e7a a papaguear ritmicamente a tabuada e ser\u00e3o essas, essas palavras prenhes de sonoridade e vazias de significa\u00e7\u00e3o imediata que repetir\u00e1 internamente para si pr\u00f3prio. Fa\u00e7a-o com os olhos abertos e vendo com a sua imagina\u00e7\u00e3o voc\u00ea mesmo \u00e1 sua frente, de prefer\u00eancia nu, ou nua. E escrutine-se.Assuma completamente na visualiza\u00e7\u00e3o o corpo imagin\u00e1rio das entidades que antes tinham um nome reconhec\u00edvel, como sendo a parte de si que a si se olha e escrutina. Fa\u00e7a-se impiedosamente passar pelo crivo dessa vis\u00e3o que n\u00e3o sendo originalmente a sua agora tamb\u00e9m j\u00e1 o dever\u00e1 ser. Atravesse o abismo que permite \u00e1 imagina\u00e7\u00e3o metamorfosear-se em presen\u00e7a. N\u00e3o se esque\u00e7a de tudo apontar no pequeno di\u00e1rio e, principalmente, abra e encerre a sess\u00e3o com um gesto definido em que possa crer.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Divirta-se, junto dos seus amigos e se assim o desejar, a discorrer demoradamente , com o m\u00e1ximo da seriedade e empenho berrado, acerca das geniais teorias do m\u00e1ximo expoente do teatro abor\u00edgene australiano por si recentemente descoberto, Sermeg Roin Dafluh, companheiro insepar\u00e1vel do grande director teatral da Mong\u00f3lia, o perspicaz Vkonta Syvil .<\/p><p class=\\\"p1\\\">Mas nunca se denuncie.\u00a0<\/p><p class=\\\"p1\\\">Nunca, nunca, mas nunca de nunca, se denuncie. Aconselho-lhe isto com um murm\u00fario, com um suave sussurro. Depende deste factor essencial a correcta germina\u00e7\u00e3o do segredo em si, segredo esse que \u00e9 demasiado real mau grado o cariz humor\u00edstico que a mim me caiba neste momento demonstrar. Limito-me a piscar-lhe o olho com a cumplicidade do afecto, para que n\u00e3o nos tornemos ambos excessivamente pesados.<\/p><p class=\\\"p1\\\">\u00a0<\/p><p class=\\\"p1\\\">Na s\u00e9tima semana una numa \u00fanica frase todos os novos nomes por si forjados, n\u00e3o os repetindo agora um a um mas espraiando-os numa longa frase rudemente similar a uma encanta\u00e7\u00e3o. Exponha esta frase internamente ao mundo com os olhos sempre cerrados durante a hora de trabalho. Preste, se j\u00e1 se esqueceu deste pormenor, especial aten\u00e7\u00e3o ao alinhamento da sua coluna vertebral. Cultive a certeza sensorial de que todo o espa\u00e7o em redor de si est\u00e1 povoado da presen\u00e7a dos seres sobre os quais trabalha. Cultive fortemente a impress\u00e3o de que, caso abrisse os olhos, os veria fisicamente manifestados \u00e1 sua frente e atr\u00e1s de si, aos seus lados, acima e embaixo. Mas n\u00e3o abra os olhos. Seja nisto ing\u00e9nuo\/a como uma crian\u00e7a que fecha os olhos na expectativa de ver o mundo desaparecer.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Na oitava semana e porque tudo deve terminar numa certa altura, nada fa\u00e7a a n\u00e3o ser, ap\u00f3s os preparativos iniciais, deitar-se no ch\u00e3o na posi\u00e7\u00e3o da estrela, rosto para o tecto com os bra\u00e7os e as pernas abertos e estendidos ocupando a maior por\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o que for capaz. Regresse cada vez mais \u00e1 percep\u00e7\u00e3o f\u00edsica do cora\u00e7\u00e3o e da respira\u00e7\u00e3o e deixe-se vaguear, deixe-se sonhar. Deve procurar o padr\u00e3o respirat\u00f3rio associado ao sono profundo, mas n\u00e3o se deve deixar adormecer. Seja passivamente preciso\/a.\u00a0<\/p><p class=\\\"p1\\\">Durante esta semana leia v\u00e1rias vezes o seu di\u00e1rio mas n\u00e3o escreva mais nada, ou comece um novo. Queime, ofere\u00e7a, ou esque\u00e7a o anterior. Enterr\u00e1-lo \u00e9, desde tempos imensamente recuados, uma op\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel, e frutuosa. Se quiser, e se n\u00e3o os tiver destru\u00eddo que \u00e9 a mais aconselh\u00e1vel das op\u00e7\u00f5es, recupere de volta os seus livros.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Neste seu primeiro esbo\u00e7o for\u00e7osamente grosso o Congresso terminou. As varia\u00e7\u00f5es e os pequenos pormenores decisivos s\u00e3o in\u00fameros e devem ser individualmente supridos, neste caso particular deste texto, e do seu contexto. Grande parte deles e da sua natureza devem j\u00e1 ser por si ligeiramente entrevistos.<\/p><p class=\\\"p1\\\">Caso isso n\u00e3o aconte\u00e7a ocupe ent\u00e3o o tempo precioso que lhe resta a dedicar-se a uma actividade perfeitamente in\u00fatil. Fa\u00e7a \u201cteatro\u201d . Fa\u00e7a muito \u201cteatro\u201d. Fa\u00e7a cada vez mais e mais e mais e mais e mais \u201cteatro\u201d. Imite o brutal mugido de um touro bravo e v\u00e1 dar de cornos contra a porta gritando veementes ol\u00e9s pontuados com dores de fu\u00e7a. Quem sabe se um dia a sua cabe\u00e7a abrir\u00e1.<\/p><p>\u00a0<\/p><p class=\\\"p1\\\">Hugo Calhim Cristov\u00e3o<\/p>\",\r\n      \"align\": \"top\",\r\n      \"row\": 1,\r\n      \"col\": 2,\r\n      \"colspan\": 8,\r\n      \"offsetx\": 0,\r\n      \"offsety\": 0,\r\n      \"spaceabove\": 0,\r\n      \"spacebelow\": 0,\r\n      \"yvel\": 1,\r\n      \"push\": 2,\r\n      \"relid\": 4,\r\n      \"frameOverflow\": \"\"\r\n    }\r\n  ]\r\n}","phonegrid":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nuisiszobop.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/475","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nuisiszobop.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nuisiszobop.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nuisiszobop.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nuisiszobop.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=475"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/nuisiszobop.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/475\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nuisiszobop.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/482"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nuisiszobop.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=475"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nuisiszobop.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=475"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nuisiszobop.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=475"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}