Press
Quando Vem a Taciturna
De Limiar em Limiar
O Presente Frágil
Antena 1: Programa “Mesa para Dois”
Entrevista de Joana von Mayer Trindade | 09.03.2026
Diamantino Guedes: Tem uma nova peça, é recente. Estreou no Centro Cultural de Vila Flor, no âmbito do Festival GUIdance. Então, que peça é esta? Já agora, recapitulemos o título: Quando Vem a Taciturna De Limiar em Limiar O Presente Frágil.
Joana Trindade: O título sugere um bocadinho a ambiência da peça: Quando vem a Taciturna. A taciturna pode ser uma entidade, uma sombra, algo de escuro, algo de sombrio; também pode ser uma mulher velha — volta a surgir a questão do feminino — até algo grotesco, mas que, quando começa a dançar, se torna extremamente belo.
Quando vem a taciturna foi retirado de um poema de Paul Celan, um poeta romeno judeu que viveu o tempo de Auschwitz e deixou uma poesia belíssima. É incrível como, mesmo nessas condições, conseguiu criar uma obra poética tão profunda. A arte pode ser um veículo, uma forma de saída, uma forma de criar novos mundos e de esperança — e ele é um exemplo disso.
De Limiar em Limiar também vem de um livro dele. O Presente Frágil foi algo que nós acrescentámos ao título e tem muito a ver com o momento geopolítico que estamos a viver, mas também com o lugar das artes: como é que, aceitando esse presente frágil, podemos evoluir e transcender.
A peça tem um pouco esse percurso. Começa com a música The End [Doors], que também fala um pouco sobre o fim do mundo, mas que é bastante luminosa. O início da peça tem essa energia — alguém dizia que era bastante frenética e muito movimentada. Depois passa por um momento com Jacqueline du Pré, que é mais misterioso e profundo, e acaba numa luz, numa espécie de transcendência.
Estou aqui a desvelar um pouco o título, sem querer fazer uma descrição “à la carte”, como se costuma dizer, mas deixando vontade para que as pessoas vão ver a peça.
ERREGUETÉ: Revista Galega de Teatro
Crítica de Afonso Becerra | 04.03.2026
Nesta Taciturna aparecem as deusas da India e aquelas mulheres idosas das aldeias portuguesas e também das galegas. Mulheres sabias que levavam muitas roupas, postas umas acima das outras, evocadas aqui pelos figurinos com várias camadas de aventais estilizados. Mulheres idosas e lutadoras que continuaram a mexer-se e a atuar, além do ego, agarradas à terra, embora tivessem assistido a tempos de privação e de miséria, embora sofressem catástrofes. Eis o dançar quase frenético destas entidades que as evocam, a olhar para nós e além de nós, como horizonte, com a expressão assombrada de quem observa atos terroríficos e catástrofes, tal qual estamos a ver na atualidade, tal qual padeceu o poeta Paul Celan, sobrevivente do Holocausto. Eis a dança a continuar dançando-se apesar de tudo e por causa de tudo.
Tal como para Paul Celan, após Auschwitz, a linguagem ficou como “a única coisa atingível, próxima e segura entre todas as perdas”, parece que para a Nuisis Zobop a dança é esse espaço em que podemos transcender o terror e as misérias, principalmente as provocadas pelo homem. Eis, também, o espaço em que o medo é superado pelo movimento, tal qual o poeta português Al Berto fez em O Medo.
A personagem alegórica da morte flutua nesta peça, mas não é sombria nem triste, é a afirmação de um presente frágil que a ética/estética intensifica e enche de luz. Eis o paradoxo da Taciturna que, aqui, vem pelo limiar para nos extasiar e nos dar prazer.
Rádio RUM: Podcast
“Fica para Semente” de Carolina Damas | 24.02.2026
Quatro bailarinas em palco, triângulos desenhados no chão, e a partir daí uma hora e meia de tensão e inquietação, mas também calor, melancolia. Cresce em nós algo sombrio, destruidor, mas uma vontade de terminar com esta impotência. A criação chegou-me com muitas perguntas, difíceis de responder, e que por isso me preencheram todo o fim de semana até hoje.
O que eu senti como um ataque à vida, e por isso à morte, à violência, ao desejo, ao erotismo, ao caos e à beleza. Um trabalho exímio das bailarinas - que espero pronunciar bem o nome - Sara Miguelote Lucia Marrodan, Ethel Desdames e Marta Pieczul, com uma expressão intensa, clara, forte, com movimentos ardentes, mas controlados, em que cada bailarina trabalha sobre uma base diferente, cada uma com o seu caminho, assíncrono, que depois se une num momento único.
Antena 2: Jornal da 2
Entrevista de Joana von Mayer Trindade | 20.02.2026
Acima de tudo desejamos proporcionar uma experiência que seja uma experiência verdadeira e que convoque as emoções, o sentimento, ou seja, uma experiência que não seja racionalizada, mas uma experiência que seja sentida e que seja um espetáculo tocante, em que esses conceitos filosóficos vão sendo distribuídos e interpretados, criando mundos e abrindo portas, quase como portais, em cada uma das bailarinas, que é muito diferente, e convocando também essa diversidade e essa complexidade na diferença e essa unidade que vem da união, de elas serem muito diferentes".
O título também faz homenagem ao Paul Celan, um alemão que esteve nos campos de concentração.
Rádio Renascença
Novo espetáculo da Nuisis ZoBoP quer "dar esperança às pessoas" | 12.02.2026
Depois de passar pelo Festival GUIDance, a performance vai em digressão pelo país, passando pelo Teatro Aveirense, Aveiro (20 de fevereiro), Teatro-Cine Pombal (28 de fevereiro), Teatro Stephens, Marinha Grande (14 de março), Festival DDD – Dias Da Dança, Porto (9 e 10 de abril), Cine-Teatro Avenida, Castelo Branco, (2 de abril), Casa das Artes de Famalicão (17 abril), Teatrão, Coimbra (30 de abril) e Teatro Rosalía de Castro, Corunha, Galiza/Espanha (30 de maio).
Alguns destes territórios foram atingidos pelas tempestades que passaram por Portugal, deixando por trás um rasto de destruição. Hugo Calhim Cristóvão está ciente deste contexto e quer "dar esperança às pessoas".
O artista explica que "não há nenhuma maneira de se conseguir fugir à tragédia e às dificuldades que isso causa", mas a arte "pode dar uma força e compreensão".
"Vendo-nos uns aos outros enquanto pessoas, qualquer tragédia faz parte da vida. Podemos crescer e lutar melhor contra ela. A arte tem essa função de nos dar esperança, capacidade de luta, conhecimento, cultura. É uma prova que a arte e a vida resistem a qualquer tragédia", sublinha.


Fuga Para o Tempo Presente - O Leve Poder Da Lua Apenas Queima Os Olhos
ARTEZBLAI: El Periódico de las Artes Escénicas
Crítica de Afonso Becerra | 19.05.2025
“Escenas do Cambio. Dramaturgias para un festival”
‘FUGA PARA O TEMPO PRESENTE – O LEVE PODER DA LUA APENAS QUEIMA OS OLHOS’ de NUISIS ZOBOP (08/05/25). Joana von Mayer Trindade y Hugo Calhim Cristóvão, junto a Sara Miguelote en escena, nos ofrecen el sacrificio poético que implica la fragilidad del tiempo presente, la resistencia y la persistencia en la repetición que ritualiza y estructura coreografía y vida. Como un poema continuo que desafía lo efímero y se ancla paradójicamente en el presente. La presencia de Sara trasciende la danza a un lugar que exige que estemos con ella, en esa intensidad abismal. En caer y levantarse, en desafiar las líneas volviendo al círculo. Un ballet actual y atemporal de extenuación y resistencia, fuerza y fragilidad, nostalgia y utopía.


Nós Diario - Xornal de intereses galegos
Notícia - Cultura | 05.05.2025
“Escenas do Cambio comeza a quinta feira con 15 espectáculos que exploran o presente”
Entre as novidades destaca a estrea no festival dos artistas galegos Elvi Balboa e o Colectivo D'ellas , que estrearán as súas pezas de danza Baunsbak e Velaiquich, Amooorch! fóra do Gaiás, este último acompañado de música en directo. Desde Portugal, Nuisis Zobop propón Fuga para o tempo presente , unha obra que entrelaza filosofía, poesía e danza contemporánea pensada para público a partir dos 6 anos.
Suores de Mel e a Morte não Terá Domínio

PUBLICO
Fotogaleria por Nelson Garrido, Daniel Rocha, Adriano Miranda, Nuno Ferreira Santos, Paulo Pimenta e Rui Gaudêncior | 31.12.2024
“2024: as imagens do ano pelos fotógrafos do PÚBLICO”
“Por vezes, basta uma imagem para nos contar uma história ou para nos fazer reflectir”, resume o editor de fotografia do PÚBLICO Miguel Manso. É isso que procura quando tem de fazer escolhas, pesando o “valor estético e o conteúdo informativo” de cada imagem. Foi também esse o critério para escolher 65 fotografias que nos trazem outras tantas janelas para 2024.
ERREGUETÉ: Revista Galega de Teatro
Crítica de Afonso Becerra | 01.12.2024
“Dramaturgia e heterodoxia na dança”
Este fim de semana fui convidado pela Joana von Mayer Trindade e pelo Hugo Calhim Cristóvão, da Nuisis Zobop – Associação Cultural de Criação, Investigação e Formação no Domínio das Artes Performativas, para fazer um “Laboratório de Dramaturgia Pós-dramática ou do Heterodoxo na Dança” no Espaço Agra da cidade do Porto (Portugal). Aqui estivemos a observar como na dança e no teatro dramático, o sentido está principalmente ancorado na narratologia, no facto de representar uma história com personagens. O construto ficcional de uma história é a expressão hierarquizada de um desejo, uma intenção, um objetivo, encarnados pelo protagonista dessa história e funciona sempre segundo a lógica causal com que percebemos tudo o que acontece na vida.


ERREGUETÉ: Revista Galega de Teatro
Crítica de Afonso Becerra | 22.09.2024
“Suores de Mel e a Morte Não Terá Domínio”
Beleza e Revolução. Suores de Mel
Olhando para Suores de Mel e a Morte Não Terá Domínio pode perceber-se e sentir-se que foi o pensamento o relâmpago que expulsou o medo e que conectou a dança com uma beleza que é revolução. É revolução porque está cheia e transbordante e é por isso mesmo que até parece extenuar-nos, desabituados como estamos a estas intensidades. Desacostumados ou, se calhar, nunca estivemos acostumados a uma dança e a umas artes cénicas além do entretenimento e da distração.
Onde está o Relâmpago que Vos Lamberá as Vossas Labaredas

ERREGUETÉ: Revista Galega de Teatro
Crítica de Afonso Becerra
Em Onde está o Relâmpago que Vos Lamberá as Vossas Labaredas, a heterodoxia da dança é saudável e prazenteira. O movimento diverso, complexo, cheio de pormenores, faz com que os tormentos se aclarem após as tormentas. O final é um prodígio, quando as respirações e as posições de Sara e de Paula coincidem em paralelo, e naquele momento de enorme concentração e intensidade se acumula tudo o vivido durante a peça. Então, a luz movimenta-se, vai até elas, foge para a coluna de espelhos e desaparece, a deixar eletricidade no ar. Talvez até experimentemos o relâmpago a lamber as nossas labaredas.
Portrait Of a Dancer as Velvet
Jornal Público P3 , Paulo Pimenta, 27 Maio 2022
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ARTEZBLAI: el Periódico de las Artes Cénicas, Afonso Becerra
"Hay las miserias de quien se exhibe y de lo exhibido.
El escenario es como una lente de aumento que puede amplificar cualquier detalle. Es como una lupa que concentra los rayos del sol y puede generar combustión.
El escenario nos desnuda.
Para salir a escena hace falta valentía, mucho trabajo, honestidad.
De quien sale a escena se suele esperar mucho. Una bailarina o una actriz, cualquier persona o dispositivo escénico que actúe, se convierte en un foco de atención y en una expectativa.
Una de las cosas más difíciles en la vida y en las artes vivas es mostrar o no ocultar nuestra vulnerabilidad. Nadie quiere fracasar. Todas queremos el éxito. Y lo asociamos al poder, a la fuerza, a la infalibilidad, a la salud. Si no tenemos estas cualidades en el momento determinante, entonces nos las imponemos. Y ahí nace la impostura y el fingimiento. Eso que tradicionalmente se suele vincular con el teatro: el arte del fingimiento."
..."Portrait of a Dancer as Velvet confirma una poética muy propia de Joana von Mayer Trindade y Hugo Calhim Cristóvão, en la onda de Dos Suicidados – O Vício de Humilhar a Imortalidade (Festival GUIdance 2019) y Fecundação e Alívio neste Chão Irredutível onde com Gozo me Insurjo (Festival GUIdance 2021), que son las anteriores piezas que yo he podido ver. Una poética caracterizada por la alta intensidad física en el movimiento y la apertura de muchas evocaciones mistéricas, sin detenerse en expresiones o significados innecesarios.
Las dos piezas anteriores eran dúos. Esta última es un solo, pero en él el cifrado abstracto de la danza trasciende lo individual y parece contener lo universal. El retrato de la bailarina no es el retrato de esta bailarina, de Sara Gil Agostinho, va más allá."
Fecundação e Alívio Neste Chão Irredutível onde com Gozo me Insurjo
Dos Suicidados – O Vício de Humilhar a Imortalidade
"O estado supremo da vertigem": Helena Teixeira da Silva, Jornal de Notícia, 01-04-2019
DDD Poucos saberão quem foi Raul leal (1886- 1964), filósofo e poeta modernista que pouco brilhou no clã do Orpheu, talvez com injustiça, mas a quem pertence um pensamento arrojado e futurista e a autoria de conceitos como o de astralédia- qualquer coisa coisa como a fusão absoluta de todas as artes. Provocador, esotérico, socialmente excessivo e politicamente incorreto, o escritor acabaria por exilar-se em Sevilha, em 1915, de onde escreveria a Mário de Sá Carneiro revelando-se: "O espírito cada vez brilha mais através uma crescente decomposição da matéria e da vida". Uma dança íntima entre a miséria física e a riqueza criativa, que haveria de sobressaltar a Fernando Pessoa, seu amigo, defensor e tradutor de uma carta quase inédita que sintetiza o seu futurismo:" o estado supremo da Vertigem". Os coreógrafos Joana von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristovão, que têm dedicado os seus últimos trabalhos ao cruzamento entre a coreografia e a filosofia, dão-nos hoje (Campo Alegre, 19h) a conhecer este extraordinário "profeta do Espírito Santo", em "Dos Suicidados - O Vício de Humilhar a Imortalidade"
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"Da melancolia luxuriante de Lento e Largo à luxúria vertiginosa de Dos Suicidados": Alexandra Balona, Jornal Público, 24-02-2019.
“...uma travessia inflamada de dois corpos entre a vertigem do vício e da dor, no paradoxo que une a morte à sofreguidão de vida -, partilham um enorme rigor coreográfico atravessado por uma intrigante atmosfera de melancolia, na primeira mais subtil, na segunda levando-nos para regiões austeras da existência humana. (...) uma dramaturgia muito complexa e simbólica, física e emocionalmente intensa, numa ode à vida e à morte que não deixa o público indiferente.”
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Cuestión de confianza. IX GUIdance. Por Afonso Becerra, 25-02-2019
"Dos Suicidados – O Vício de Humilhar a Imortalidade es una pieza enjuta, sobria y, a la vez, rebosante. Francisco y André, los bailarines, semidesnudos, ejecutan una coreografía de una alta fisicalidad, que parece no tener principio ni fin. (…) El tacto y la ceguera. La distancia y la mirada. El tacto del contacto y de la relación, con los ojos cerrados, pronunciando la piel y su vibración íntima. (…) También, en el esfuerzo olímpico de toda la sucesión de actitudes y figuras, asoma aquella concepción ritual y casi sacrificial de Jerzy Grotowski, heredada, en parte, de Antonin Artaud, aquellas imágenes de Ryszard Cieslak como un Jesús Cristo del teatro en el Príncipe Constante, por ejemplo."
GUIdance 2019 por Afonso Becerra, 17 Fevereiro 2019
"Joana Von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristovão estrearam DOS SUICIDADOS - O VÍCIO DE HUMILHAR A IMORTALIDADE, uma peça de dança quase grotowskiana na qual respiração e movimento são a música em luta com o silêncio e a morte, até a exastãu. Do esforço visível no movimento, como coreografia, em DOS SUICIDADOS..., ao esforço invisível na marcação coreográfica em TO A SIMPLE ROCK 'N' ROLL... "
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Danem-se! E que venham os artistas novamente decadentes!: Claudia Galhós, Jornal Guidance, 2019.
"Eles começam por aí, pelas leituras. “Sodoma Divinizada” de Raul Leal, “Funâmbulo” e “A Criança Criminosa” de Jean Genet e “Van Gogh, o Suicidado da Sociedade” de Artaud surgiram no início. Estes são textos que trazem uma implicação do viver que desafia normas e convenções, e procura um sentido sempre na inconformidade. As primeiras ideias correm soltas, como diz Hugo. “Gostei muito do texto ‘Sodoma Divinizada’, da temática. Por outro lado, a Joana queria trabalhar sobre algo que tivesse a ver com vício, e surge a ‘Justine, ou os infortúnios da virtude’ do Marquês de Sade. Portanto, temos ‘Sodoma Divinizada’, Marquês de Sade, a relação entre dois homens, depois uma relação sexual escondida, o vício...” E assim se vai desenrolando o novelo de uma ideia que chegará a cena. Muitas questões são recorrências, como o fascínio por Artaud."
Da Insaciabilidade no Caso ou ao mesmo tempo um milagre
“Melhores de 2017 – Dança / Intermitências do mundo”: Claudia Galhós, Expresso, 23-12-2017.
"Foi um ano particularmente marcante na criação artística no que podemos entender como dança no sentido amplo. Corpos que afirmam a sua resistência, rebeldia, cansaço, idade, fogo, doença, desalento e fundamental eloquência do outro. Corpos poéticos. Corpos politicos. Corpos viscerais. Corpos inconformados. Corpos obscenos."
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“Porto, new place to be”: Gérard Mayen, 13-05-2017.
“Derrière un emballage corporel expressionniste, le mouvement est troublant, qui s'abstient de tout déploiement en trajectoire spectaculaire, mais en même temps se consume d'énergie farouche, en profondeur, comme pour creuser sur place. C'est intransigeant. Intrigant. Et peu à peu enivrant."
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"Porto, point de bascule”: Ainhoa J-Calmettes, Mouvement, nº90, 07/08-2017.
Hasard ou logique intime, ce retour coïncide pour eux avec un nouveau chantier de recherche autour de “l’esprit portugais”, “La pensée, ou lâme”, portugaise est censée être intimement liée à la saudade (mélancolie –Nda). Nous étions très sceptiques vis à vis de cette idée, voirs très en colère. Le fascime et la dictature se sont complètement réapproprié ces termes de façon a immobiliser la tradition. ” Dans leurs dernière création, quatre performeurs font preuve d’une intense physicalité, concentrant leur énergie en infimes mouvements ou sautant jusqu’à l’épuisement, le visage grimé en masque expressionniste. Inspirés par un texte d’Almada Negreiros – Le Carré bleu - , Joana von Mayer Trindade et Hugo Calhim Cristovão cherchent “um maximalisme qui serait construit dans le temps” et tracent ainsi un grand écart temporel entre science-fiction et univers primitif. En mêlant passé et futur, ils referment un piège logique sur la possibilité d’une quelconque nostalgie.”
"Arte de Estranhar em Festival": Claudia Galhós, Expresso, 2017.
"É neste enquadramento, na categoria do estranhamento, que se integra o primeiro encontro em redor da peça, ainda em criação, “Dos Suicidados - O Vício de Humilhar a Imortalidade” de Joana von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristovão”.
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"Da importância do que se esquece e do que se recorda": Claudia Galhós, Jornal Guidance, 2018.
"O trabalho que tentamos fazer, implica uma ideia de relação que é estar com as pessoas e connosco próprios depois da paixão, quando começa a vir a desilusão, quando a pessoa com quem estás, por quem te apaixonaste ou com quem estás a trabalhar já não é o teu 'príncipe encantado'."
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"Dança. GuiDance busca múltiplos futuros e apresenta Rui Horta em dose dupla": Tiago Mendes Dias, Público, 16-12-2017.
"De 01 a 10 de fevereiro, Guimarães recebe a 8ª edição do GUIDance - Festival Internacional de Dança Contemporânea, convocando nomes incontornáveis como Wayne McGregor e Peeping Tom a abrir e a encerrar, respetivamente, o festival. Rui Horta – coreógrafo em destaque nesta edição – apresenta duas criações, uma em estreia absoluta e outra em reposição. Em 2018, o GUIdance reúne a europa da dança na cidade berço, com Vera Mantero, Joana Von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristovão, Patricia Apergi, Euripides Laskaridis, Marlene Monteiro Freitas e Andreas Merk a completarem o cartaz."
O céu é apenas um disfarce azul do Inferno
"Liberdade e repressão no Festival Cumplicidades": Vanessa Queiroga, Visão, 04-03-2016
“Na dramaturgia do espetáculo são investigados os sentidos de desejos reprimidos, o caótico, o dilaceramento que leva ao prazer e a relação conflituosa entre dois mundos, muitas vezes presente em obras da literatura portuguesa, como em Luís de Camões, Bocage ou Fernando Pessoa. Imaginamos numa senzala, durante a noite, os escravos a dançar. Pensamos na dança da corte e na dança dos escravos. Essas duas formas diferentes de entender a dança. O que faz com que pessoas que estão a trabalhar o dia todo, que nem loucas, se juntem à noite para dançar. A que necessidade isso corresponde?", explica Hugo Calhim Cristóvão, sublinhando que no espetáculo não se trabalhou a libertação com um sentido místico, mas sim como uma pesquisa sobre o prazer e o movimento de transgressão.”
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"Anjos, demónios, manifestos e mentiras no Cumplicidades", Gonçalo Frota, Jornal Público, 04-03-2016.
“Mas em cena céu e inferno empurram os bailarinos no sentido do sofrimento, da agressividade, da violência e do esforço físico. Até ao ponto em que tudo isto, de súbito, desemboca no prazer. O ponto em que os opostos, embalados por uma ritualística bateria indutora de transe, se diluem um no outro.”
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It's enough!!!: Cláudia Galhós, 06-04-2016.
"These are artists in in between generations, with a very strong view on arts and/or the world, doing very potent, urgent and pertinent work, pulsing with life and relevance, creating waves of disturbance in the body and in the mind of colleagues and audiences. Some of them have been programmed by Cumplicidades.
Here are some examples. The intensifying power of strangeness, which is violence of the flesh and transformative pulsing of possible visions of the body in “Heaven is just a blue disguise of Hell”, by Hugo Calhim Cristóvão & Joana von Mayer Trindade."
"Festival Cumplicidades regressa a Lisboa em março": Rita Cipriano, Observador, 11-02-2016.
"O festival, que irá decorrer entre os dias 4 e 19 de março, irá arrancar com “O Céu é apenas um disfarce azul do Inferno”, um espetáculo co-produzido pelo Cumplicidades em conjunto com os coreógrafos e dançarinos Joana Von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão. Com um título retirado de um poema de Teixeira de Pascoaes, “O Céu é apenas um disfarce azul do Inferno” centra-se nas diferentes visões, representações e heresias que o Céu e o Inferno assumem na cultura portuguesa."
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“Arte na intimidade”: Cláudia Galhós, Expresso, 2016.
“Aqui há autores e mundos para descobrir. “O Céu é apenas um disfarce azul do inferno”, de Joana von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristovão é um desses casos de singularidades artísticas por desvendar. Esta peça que abre o festival, trata de “visões, representações, heresias, que Céu e Inferno, Demoníaco e Angélico, assumem na cultura portuguesa, e fá-lo sobre o signo da: carnal, conceptual, poética”.
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Nameless Natures
Sobre Nameless Natures, de Joana von Mayer Trindade" por Alexandra Balona.
"O “e/ou” de Nameless Natures comporta, à partida, uma série de premissas da peça. Trata-se de um solo “e/ou” um dueto, de um corpo “e/ou” outro corpo que, ora se fundem, ora se expandem no espaço exíguo de um canto e das duas paredes que o formam - suporte e/ou barreira para os seus movimentos.
A conjunção “e/ou” reúne numa só palavra cópula e disjunção, ou seja, reunião e fusão com exclusão e alternativa. Assim, Nameless Natures, de Joana von Mayer Trindade, interpretação e co-criação de Bruno Senune e/ou Lee Meir desdobra-se num díptico (ou pluríptico) de possibilidades. Convoca o hibridismo no género, na indiferenciação humano-animal, e na estranheza dos movimentos. (Re)abre a questão da imagem e da não imagem que interpela o espectador - o negro dos figurinos, a invisibilidade dos corpos sem rosto e de costas voltadas. Do mesmo modo, a peça relembra-nos a contradição que existe na visibilidade do invisível, ou seja, aquilo que nos planos opacos, nos cantos, ou até na morte, será possível ver por inter-medio da memória, da imaginação, e da criação. Estas naturezas são tão inefáveis quanto “sem nome”, e recordam os limites da linguagem e da acção humana.
No café-concerto do Rivoli Teatro Municipal do Porto, a plateia disposta defronte a um canto vê nele dois corpos em pé, vestidos de preto, capuz na cabeça, ambos de costas, um sobre o outro. Sem um desenho particular de luz, tudo nos surge muito cru e evidente.
No centro e suspenso do tecto, um elemento desequilibra e inquieta o espaço cénico: uma crina de cabelos, fios e despojos de outra natureza sem nome que convoca o sagrado, o desconhecido, o simbólico – e porque não a arte? – aquilo que, ao longo dos tempos, permitiu ao humano (con)viver na fissura da sua finitude, sair de si e encontrar o outro, responder à eminência da morte.
Nunca vemos os rostos daqueles corpos voltados para o canto. Com movimentos de pressão e metamorfose fundem-se um no outro, compactam-se. Progressivamente afastam-se, desligando ao longo das paredes, sempre com movimentos estranhos, sem narrativa, nem representação. Corpos e orgânica de movimento numa procura de relação com os planos físicos, naquela que parece ser também uma procura interna de modo de agir. Um deles retoma o canto em explorações várias, o outro atravessa o espaço de uma parede à outra, com mais rapidez, e ataca o solo. Movimentos de arrasto no chão, ora velozes, ora calmos, parecem responder à composição sonora que irrompe inesperadamente na sala. A sonoplastia de Jonathan Saldanha confirma a dissonância do ensemble, uma interrupção no silêncio que pretende ser desligada de tudo, disruptiva. A segunda interrupção, mais à frente, um bater de coração ao longe sem relação aparente, confirma uma composição que se pretende inquietante, de naturezas não cognoscíveis.
Outro elemento faz entrada na cena, uma peruca de cabelo longo e escuro que é disputada (ou amada) no solo pelos dois performers, e que vem reiterar o estranhamento destes seres e desta comum+unidade entre ambos. Assim como entra, esse elemento desaparece. Há movimentos mais agressivos e velozes que lembram, por instantes, disputas ou relações carnais, mas os corpos permanecem ilegíveis. Um dos performers desaparece, o outro retoma o canto, e ali fica.
Se no biocapitalismo actual, a transformação permanente dos modos de vida e de subjectivação é mercantilizada, como refere Boyan Manchev, será necessário persistir na metamorfose, e assim, actuar no vazio inapropriável entre as singularidades – o vazio originário do político - sem o saturar, sem o reduzir a uma substância.
Ao contrário de outras peças de dança contemporânea que convocam, nomeadamente, naturezas animais em corpos humanos através da representação tácita e estereotipada dos movimentos, Nameless Natures têm a virtude da não literalidade das imagens, de persistir na estranheza, na metamorfose e experimentação do sensível, não libertando o espectador da sua inquietação, e mantendo em aberto a potência do político."
Zos (She Will Not Live)
Carlos Gouveia Melo
“Na verdade testemunhou-se uma transubstanciação, tanto mais difícil quanto se trata, não só de um corpo no seu estado de esplendor físico, como ainda feminino, e logo, desde há milénios prisioneiro de um olhar, o masculino. Mas a transubstanciação dá-se. E, naturalmente em ritual, em absoluto silêncio, entrecortado apenas pelo som do seu próprio fabrico.”
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Yves Rouleau
« Encore merci et bravo pour ta performance c'était du grand art, digne d'un Jan FABRE, de La RIBOT et bien d'autres... »
Jocelyn Cottencin
« Je suis très heureux de découvrir la force, l’intensité, l’engagement qui caractérisent ton travail . De la pièce se dégage évidemment une posture particulière, une nécessité de revendication, de faire face, d’un engagement physique et par là elle construit un vocabulaire personnel. J’ai été très impressionné par ta présence, de ce qui se dégage de toi sur scène. Il se produit une grande richesse de lecture, en même temps que des actions impressionnantes. »
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Ana Clara Guerra Marques
“Lindíssima na sua pele alva que vai metamorfoseando com molas de madeira, baton vermelho, álcool e uma bata roxa. Ao contrário do título escolhido, eu atrever-me-ia a dizer: She will live, ou she lives e com ela somos transportados ao universo das máscaras. Quantas temos cada um de nós? Todas e mais essa que tirámos para perceber o excelente trabalho de Hugo Calhim Cristovão e Joana von Mayer Trindade.”
Abbadon
Sobre "ABBADON", crítica por Nuno Meireles Actor e Professor de Teatro
“Estamos em guerra. A verdade é que estamos em guerra.
Estamos em guerra com o simples facto de serem não os vencedores mas sim os burgueses que escrevem a história do nosso tempo. Ou antes, que se inscrevem na história, como se fosse por pacotes ou acções ou comparticipações. Estamos em guerra com a burguesia. Estamos em guerra com a falta de mérito, estamos em guerra com a falácia, com o embuste, com a ignorância encapotada de cultura. Estamos em guerra com o grande choque entre o que se diz e o que se faz; estamos em guerra com quem tem dinheiro, e estamos em guerra com quem se lamuria de não o ter; estamos em guerra com todo o baby boom de criadores auto-fecundados em geração espontânea, para quem a arte começou agora e com eles; estamos em guerra com o meu estilo, os este vai ser um projecto transversal, os pluris isto e pluris aquilo; estamos em guerra com carradas de gente que até mete impressão.
Estamos em guerra e isto não é brincadeira. Estamos em guerra e, como estamos em guerra, a única coisa que podemos fazer é servir-nos ou de uma grande raiva ou de um grande amor. Ou de um ou de outro. Às vezes dos dois. Muito raramente dos dois.
Estamos em guerra e Abbadon é uma peça que está num dos lados das trincheiras. Está no lado em que ninguém quer estar. Não está nas folhas de serviço ou de pagamento de lado nenhum, não está senão na trincheira onde mora a tenacidade. Está com a guerrilha. Isto se Abbadon não for, afinal, a própria guerrilha. Algures, escondidos dos olhares das gentes, sem desistir nunca.
Conta-se que os guerrilheiros vietnamitas, nos ataques a alvos americanos, para passar por arame farpado não usavam camisa pois isso os prenderia, atrasaria. Preferiam ferir a carne. Abbadon está neste plano. Prefere ferir a própria carne para chegar aonde quer.
Esta peça, por ser tudo o que não se vê hoje em dia, é tudo o que faz a diferença, é uma ponta de lança no terreno pantanoso de ignorância - e às vezes ignomínia - em que estamos. Não há esperança nenhuma que isto melhore, pelo contrário. Mas pode haver fé. E Abbadon é um renovar da fé no teatro. Um sólido, forte, rigoroso manifesto de fé, de raiva, de humor, de técnica, de sobrevivência.
Abbadon é uma peça feita por uma actriz só. Mas Abbadon não é apenas uma peça feita por uma actriz só, é outra coisa. Porque tem construção em cada momento; porque tem, ao contrário de desleixo, rigor físico; ao contrário de auto complacência, determinação; ao contrário de vamos experimentar uma ideia que tou a ter, exercício pleno das possibilidades do corpo, da voz, da emoção e da imaginação de uma actriz.
Não é uma peça fácil mas há alguma outra peça que seja tão exigente para com o público por o ser consigo mesma?
Enfim, uma peça a sério. Uma peça em que a iconoclastia e a escatologia ombreiam com a auto exigência; em que o esforço não compactua com o masoquismo; em que há justeza de proporções em todos os momentos, tão cruamente apresentados, próximos, chocantes, mas nunca gratuitos. Porque Abbadon vende-se muito caro.
Enfim uma peça em que o humor e o sarcasmo estão lado a lado de uma construção, de uma verdadeira resposta ao mundo. Finalmente uma franqueza de emoções, ao lado de um enorme mosaico de recordações, invocações e situações fragmentadas de que o texto fala. Enfim uma peça que não fala senão numa torrente de palavras, que é o tema e ao mesmo tempo parte do discurso contínuo que vai acontecendo. Discurso de corpo, discurso de voz, discurso do texto, discurso da emoção, tudo às vezes junto e às vezes separado, paralelo, como numa polifonia, como numa auto-estrada com as suas várias vias, tudo a andar muito depressa, muito forte, muito urgente, muito a saber precisamente para onde vai. Por baixo por cima e por todos os lados de qualquer arame farpado, dentro e fora da actriz.”
“Vale a pena ir ver” por Ana Clara Guerra Marques – Coreógrafa e Bailarina
“Fui, há dois dias, ver as peças dirigidas pelo Hugo. Ainda hoje há algo que me escapa para poder fazer uma apreciação completa (isto existe?).
Descrever aqui o que vi no pequeno compartimento completamente fechado e povoado de desenhos-símbolos, onde a Paula nos prende durante quase uma hora, seria revelar algo que só é permitido sentir-se em presença da actriz/performer e na clausura do espaço escolhido.
Para além da excelente direcção e interpretação, há um texto que desafia, incomoda, agride e fala do amor, das memórias das coisas e das pessoas.
(…)
Todas e mais essa que tiramos para perceber o excelente trabalho do Hugo, da Joana e da Paula.”
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